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Nilza Silva*
O mundo se constrói num processo, que é a
efetuação metamórfica do encontro de um
elemento com outro, a mudança de estados, o movimento de composição de
elementos diferenciais. Traçar o percurso deste processo, cartografando a proliferação
dos acontecimentos, que marcam os corpos e os discursos, é tocar sua proveniência, da qual se ocupa a genealogia de
Friedrich Nietzsche. Acompanhar a produção de verdade,
esculpida nas relações de poder cotidianas e micropolíticas, nos seus embates, suas
estratégias, seus procedimentos, suas conquistas, sua superação, é afirmar a contingência da verdade. Os acontecimentos
nem sempre perceptíveis, detectáveis e/ou reconhecíveis na sua transitoriedade
espaço/temporal se entrelaçam, se enxertam, se influem, se conectam, se
disjuntam, se conjuntam, deslizam uns sobre os outros, se desviam, se compõem.
Cartografar os acontecimentos é construir um
mapa aberto, conectável em todas suas dimensões, desmontável, suscetível de
receber constantemente modificações. Ele pode ser rasgado, adaptar-se a montagens de
toda natureza, ser colocado em obras por um indivíduo, um grupo, uma
formação social(Deleuze e Guattari, 1989, p. 20). A
história universal não é senão uma teologia, se ela não conquista as condições de
sua contingência, de sua singularidade, de sua ironia e de sua própria crítica
(Deleuze e Guattari, 1995, p. 323). Na tentativa de experimentar a singularidade
histórica, traçam-se alguns movimentos que constróem a sociedade contemporânea, na
qual as psicologias sociais se apresentam como arranjamentos maquínicos coletivos da
biopolítica.
Do modo de vida burguês
A base da riqueza medieval é a terra, em torno
do que se tecem as relações da sociedade feudal, aristocrática, garantida pela aliança
nobreza-realeza-clero. O poder político, administrativo e militar fragmentado, no
feudalismo, se reconfigura pela fidelidade ao rei. O saber prospera pela amálgama
filosófico/artístico/científico/religiosa, na qual os dogmas da fé cristã revelam,
redescobrem e reinterpretam a verdade, como expressão da vontade divina. Este
teocentrismo subordina a realidade à ordenação, à hierarquia e à imutabilidade dos
espaços geográficos, temporais, religiosos e sociais. Sobre a clericalização do saber
medieval, afirma Arnold Hauser (1982, v. I, p. 255): A cultura, dentro da qual todos
os aspectos da vida se encontravam em relação direta com a fé e com as verdades do
Evangelho, abandonava à autoridade da Igreja toda a vida intelectual da sociedade, toda a
sua ciência e arte, todo o seu pensamento e vontade.
Entre os séculos XI e XV Baixa Idade
Média acentua-se o crescimento demográfico, que alastra as cidades para além dos
limites fortificados dos burgos, e reativa-se o comércio, que intensifica o fluxo de
produtos, moedas e instrumentos de crédito. A burguesia emergente, classe social que se
dedica a atividades lucrativas do mercado urbano, rigidamente controlado pelas
corporações, ganha desenvoltura e importância. Seus interesses por mercados convergem
para os interesses da realeza por territórios e para os do clero por fiéis. Esta nova
aliança burguesia-realeza-clero é decisiva no movimento de desterritorialização 1) da
Europa para o Oriente, com as Cruzadas, e 2) da autoridade real, que se fortalece, se
centraliza e ganha abrangência espaço/temporal e demográfica. E é fundamental na
gênese do Estado moderno.
A partir do século XIV (e até o século XVI),
desencadeia-se, na Europa, uma efervescência artística, filosófica e científica
o renascimento ou renascença que, incentivada pela burguesia,
começa a expressar um modo de vida antropocêntrico
e racional, iniciando o movimento de secularização da cultura e seguindo a
expansão comercial que a financia. O processo de urbanização em curso, com sua
concentração econômica e humana, sua exigência de convívio com mundos e situações
em franca mudança, aguça o interesse pelas particularidades individuais e pela realidade
imediata, rompendo com a estabilidade de hábitos, tradições e dogmas. O homem vai se
tornando a medida do mundo. O renascimento investe, consciente, científica e
metodicamente, na análise e registro da realidade. Mesmo a obra de arte se constitui um estudo da natureza. Quanto mais a vida
econômica e social se emancipa dos grilhões do dogma eclesiástico, tanto mais a arte se
volta para a realidade imediata (Hauser, op. cit., p. 358).
O renascimento cultural traça uma trajetória
anticlerical, antiescolástica e antiascética. A autoridade do clero começa a ser
substituída pela autoridade da cultura grega, da antigüidade clássica. Torna-se
inevitável a fragmentação do catolicismo enfraquecido: as revoltas protestantes. Dentre
as várias reformas, a doutrina de João Calvino o calvinismo se fortalece
entre 1536 e 1564 e melhor acolhe as preocupações, os interesses e os desejos da
burguesia em ascensão. Começa a se organizar uma nova ordem econômico-político-social
que se consubstancia nos Estados nacionais absolutistas da Idade Moderna. Cria-se um
sentimento nacionalista que acentua o desprestígio da Igreja Católica, grande detentora
de terras e privilégios e arrecadadora de tributos para o Vaticano. A Igreja Católica
inicia, então, um movimento de reação ao protestantismo e outro, de auto-reforma
a Contra-Reforma. Uma pluralidade de arranjamentos são criados. Uns, tristemente famosos
pela truculência e abusos, como os tribunais da Santa Inquisição, punem duramente a
heresia dos não-católicos, e como o Índex, impõem invisibilidade às produções
culturais desinteressantes ao catolicismo. Outros, como a Companhia de Jesus, eficiente
nas suas ações, dedica-se à educação das elites européias e colonizadas.
A conquista de novos mercados torna-se uma
exigência burguesa cada vez maior, diante do processo da Revolução comercial, que se
estende entre os séculos XVI e XVIII, na Idade Moderna. Neste sentido, tornam-se
necessárias: uma organização nacional o absolutismo
que garante a concentração, a integração, a universalidade, a regulação e a
paz interna, e uma doutrina econômica revolucionária o mercantilismo.
O absolutismo (ou centralismo monárquico ou
despotismo) é a concentração da autoridade político-administrativo-econômica e se
efetua pela sujeição da nobreza, do clero e da burguesia à realeza. O mercantilismo (ou
pré-capitalismo ou capitalismo comercial) rege a economia absolutista, na qual o Estado,
confundido com o déspota, exerce rígido controle da produção, proteção do mercado
interno e regulação comercial. Impõe-se o esforço da expansão marítima as grandes navegações indispensável para
basear a riqueza moderna nos metais preciosos que, provenientes das colônias, alimentam o
Estado e o mercado europeus. Pelo matiz do metalismo espanhol, do comercialismo inglês ou
do industrialismo francês, o mercantilismo desloca para a Europa o fluxo das riquezas
coloniais pilhadas e confiscadas, disparando o processo de acumulação primitiva de capital, que se torna a
sustentação econômica 1) do Estado moderno absolutista, em curso, garantido pela
aliança burguesia-realeza, e 2) da Revolução industrial contemporânea.
O século XVIII, século das luzes, traz uma indiscutível
revolução intelectual na França o iluminismo
ou ilustração, que também anuncia a
contemporaneidade. Pautado pelo racionalismo moderno, que se recompõe desde o século
XVII, o iluminismo tece a defesa radical do mundo burguês, apontando a razão como
suporte exclusivo do saber. A ciência trata de dominar a natureza, colocando-se a
serviço da tecnologia, em benefício do modo de produção capitalista. É
simultaneamente desvelamento e extração. Desembaraça-se da filosofia e cria o método
científico, marcado por determinismo, rigor, precisão, controle, regularidade e
prescrição. A busca da universalidade atrofia o singular, o raro, o desvio. Consolida-se
a secularização cultural.
A exacerbação da rivalidade entre a
nobreza, a burguesia e o clero intensificada pelos entraves ao livre fluxo da
produção, do comércio e do capital, e pelas idéias iluministas propicia ações
revolucionárias calcadas na nova aliança burguesia-camponeses-populares urbanos. As
transformações, que suplantam o absolutismo e substituem o mercantilismo pelo
liberalismo econômico, produzem o advento do capitalismo industrial e tornam a
Revolução Francesa (1789) um marco histórico da Idade Contemporânea.
Da população
As sociedades de soberania, que se
constróem com o absolutismo, têm em Thomas Hobbes (1588-1679) um fervoroso defensor.
Para ele, há um estado de guerra permanente, primitiva, em todas as dimensões e anterior
à constituição do Estado; uma guerra sem batalhas, nos interstícios da sociedade,
alimentada pela igualdade ou por diferenças insignificantes entre os cidadãos. A guerra
de todos contra todos. Analisando Hobbes, Foucault (1997, p. 80) escreve: O
que caracteriza o estado de guerra é uma espécie de diplomacia infinita de rivalidades
que são naturalmente igualitárias. Hobbes propõe a constituição da soberania despótica. O déspota assume o lugar de
cada súdito, tornando-se uma individualidade fabricada sobre um indivíduo concreto, pela
vontade do súdito, pelo pacto e pela representação. Ele é simultaneamente um e todos,
unidade e totalidade. A soberania é a encarnação de todos os indivíduos, a
representação de todos os direitos e vale para todo o território. Ela só se constitui
pela vontade de cada indivíduo renunciar à liberdade, evitar o medo, neutralizar os
riscos e preferir a vida à morte, na presença do estado de guerra. E só produz a
segurança pela acentuação das diferenças. Outro atributo da soberania é o direito
absoluto de vida e morte. Trata-se de fazer morrer ou deixar viver o homem, como
indivíduo.
No final do século XVII, constróem-se
relações de poder que afetam os corpos individualmente, através de uma tecnologia
disciplinar do trabalho para explorar a força útil dos corpos, maximizar a
produção e minimizar os custos. Usam-se a vigilância, a hierarquia, a racionalização,
a inspeção, o registro, a gerência, a punição. As sociedades disciplinares, que se
constituem com o processo de industrialização, operam nos indivíduos, através das
normas disciplinares das instituições.
A partir do final do século XVIII, as
técnicas disciplinares de poder se ampliam para níveis não- disciplinares, com
ingerência na pluralidade dos homens. Este conjunto de indivíduos a população é um novo corpo: corpo
múltiplo, corpo no total de cabeças, senão infinito, ao menos não necessariamente
enumerável (Foucault, op. cit., p. 218).
A população urbana ganha importância,
introduzindo questões novas, como natalidade, morbidade, fecundidade, longevidade,
produtividade, mortalidade, que afetam o processo de industrialização incipiente.
Começa a se esboçar uma biopolítica da espécie
humana para intervir em problemas permanentes que diminuem o tempo de trabalho,
desviam as energias, elevam os custos, subtraem as forças e incapacitam os indivíduos. O
direito político se transforma: direito de fazer viver ou deixar morrer o homem, como
espécie viva. As sociedades de normalização, que se organizam no século XIX, operam na
população, através das normas reguladoras do Estado compostas com as normas
disciplinares institucionais. Sua ação se estende do indivíduo à massa, do organismo
à espécie.
Desde meados do século XX, está em
marcha a transição da sociedade de
normalização para a sociedade de controle. Enquanto aquela se organiza por modelo,
por confinamento, por matriz, por demarcação clara de fronteiras, por recomeço
ininterrupto, esta se aglutina por modulação, por código de acesso ou impedimento, por
mutação, por desbordamento de limites, por inconclusão permanente. A sociedade de
controle contínuo e de competição desenfreada,
que se experimenta hoje, construída com a mobilidade ondulatória, a clivagem desdobrada,
a rivalidade, a aprendizagem e adaptação permanentes, a priorização dos serviços, a
democracia recomposta pelas vicissitudes do mercado, se expande cada vez mais, para
espaços abertos e transnacionais. Investe-se na manutenção da hegemonia do modo
capitalístico de produção, na justificação tautológica de seus esquemas e na
maximização arrogante de seus efeitos sobre todas as dimensões da vida (Deleuze, 1992,
cap. V). Este modo específico de produção imprime-se tanto nas produções,
distribuições e consumos, quanto nos procedimentos de semiotização, quanto na
geração de relações sociais, através de arranjamentos próprios ao paroxismo de certa
ordem social e econômica. Torna-se imprescindível a produção de uma subjetividade
portadora de individualismo exacerbado subjetividade
capitalística com a qual a vida se
banaliza e a realidade perde sua capacidade de inquietar. Simultaneamente, sociedade do
desperdício e da escassez, cujo controle não só terá que enfrentar a
dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas (Deleuze,
op. cit., p. 224).
RE-TALHANDO TEXTOS
1) o pólo paranóico
fascista é reacionário e segregativo. Ele investe a formação de soberania
central, a superinveste, fazendo dela a causa final eterna de todas as outras formas
sociais da história, contra-investe os encravados {enclaves} ou a periferia, desinveste
toda a livre figura do desejo(Deleuze e Guattari, op. cit., p. 329);
2) o pólo esquizo-revolucionário (ou esquizóide) é
nômade. Ele segue as linhas de fuga do
desejo, passa o muro e faz passar os fluxos, monta suas máquinas e seus grupos em fusão
nos encravados {enclaves} ou à periferia (Deleuze e Guattari, op. cit., p. 329).
Qual sopa, qual coacervato, a família, agitada por
redemoinhos, arrastada num sentido ou em outro, mergulhada no campo social, se
produz em conexão com os cortes e os fluxos que investem ora num pólo, ora em outro. A
criança se constitui, marcada pelo teor reacionário ou revolucionário de um grupo
familiar com o qual ela já prepara suas rupturas e suas conformidades (Deleuze e
Guattari, op. cit., p. 331).
O polo esquizóide de investimento do desejo no
campo social corresponde à direção molecular da microfísica, que vai para as
moléculas enquanto elas não obedecem mais às leis estatísticas; ondas e corpúsculos
fluxos e objetos parciais. Ele opera por multiplicidades moleculares de
singularidades; por linhas de fuga infinitesimais que seguem os fluxos
descodificados e desterritorializados, inventando seus próprios cortes ou esquizes não
figurativas que produzem novo fluxo, franqueando sempre o muro codificado ou o limite
territorial; por grupos-sujeitos (Deleuze e Guattari, op. cit., p. 332 e 440).
A seu turno, os grupos-sujeitos derivam,
por ruptura, dos grupos sujeitados (Deleuze e Guattari, op. cit., p. 451).
Como um Arranjamento assegura a continuação de uma
outro Arranjamento para gerir uma situação dada? Como um Arranjamento
analítico, ou pretendido tal, pode mascarar um outro? Como vários Arranjamentos entram
em relação e o que advém daí? Com explorar, num contexto em aparência totalmente
bloqueado, as potencialidades de constituição de novos Arranjamentos? Como assistir, se o caso se apresenta,
as relações de produção, de proliferação e a micropolítica destes novos
Arranjamentos? (Guattari, op. cit., p. 30). Como isto marcha?
Esta tarefa criativa da
esquizo-análise exige ousadia e sensibilidade à diferença: desfamiliarizar,
desedipianizar, descastrar, desfalicizar, desfazer teatro, sonho e fantasma, descodificar,
desterritorializar uma pavorosa curetagem, uma atividade malévola (Deleuze e
Guattari, op. cit., p. 458).
A esquizo-análise, pela cartografia, faz
uma agrimensura dos acontecimentos, analisando-os no embate dos conceitos de maioria e de minoria. A maioria se erige como um padrão
em relação ao qual as outras quantidades, quaisquer que sejam, serão ditas
menores (Deleuze e Bene, 1990, p. 124). O território do estalão majoritário é
animado por um modelo de poder no qual de um pensamento se faz uma doutrina, de uma
maneira de viver se faz uma cultura, de um acontecimento se faz a História (Deleuze
e Bene, op. cit., p. 97). Estabelecem-se relações de força que tanto mais estandartizam
regras e modos quanto mais se faz sentir a fragilidade (ou mesmo a impotência) de um
estado de coisas, de uma situação, de um discurso em se franquear ao debate e à
contraposição. Compõe uma minoria o conjunto de elementos que, independentemente da
quantidade, está excluído do padrão majoritário ou está, subsdiariamente, incluído
nele. Há sempre riscos de uma minoria recair na maioria, ao refazer o padrão de poder,
ao normalizar-se, ao fechar-se sobre si, ao guetificar-se, ao molarizar-se.
Fazer psicologia social, via
esquizo-análise, é tornar-se minoria: é interceptar o processo de vida da comunidade
para subtrair as homogeneizações e superar as estratificações do organismo, da
significância e da subjetivação. O organismo, espaço-tempo marcado de arquitetura e
ordem, se encarrega da objetividade, da eficiência, da acumulação, da hierarquia, da
utilidade, para impedir corrupções. A significância faz passar apenas códigos
interpretáveis, cerceando a criação e a livre circulação de signos, para impedir
transgressões. A subjetivação recorta e fixa papéis distintos e complementares, para
impedir errâncias. É preciso, então, aproveitar a variabilidade, a corrupção, a
transversalidade, a transgressão, a heterogeneidade, a errância do mundo para
impulsionar o próprio movimento de desterrritorialização da cultura. Saber-poder
E por saber sujeitado eu entendo
duas coisas. De uma parte, eu quero designar, em suma, conteúdos históricos que foram
sepultados, mascarados nas coerências funcionais ou nas sistematizações formais. (...)
Então, os saberes sujeitados são estes blocos de saberes históricos que
estavam presentes e mascarados no interior dos conjuntos funcionais e sistemáticos e que
a crítica pode fazer reaparecer pelos meios, evidentemente, da erudição.
Segundo, por saberes sujeitados creio que
é necessário entender outra coisa e, num sentido, totalmente outra coisa. Por saberes
sujeitados eu entendo igualmente toda
uma série de saberes que se encontravam desqualificados como saberes não conceituais,
como saberes insuficientemente elaborados: saberes nativos, saberes hierarquicamente
inferiores, saberes abaixo do nível do conhecimento ou da cientificidade requeridos. E é
pela reaparição destes saberes de baixo, destes saberes não qualificados, destes
saberes desqualificados mesmo, é pela reaparição destes saberes: o do psiquiatrizado, o do doente, o do enfermeiro,
o do médico, mas paralelo e marginal em relação ao saber medical, o saber do
delinqüente, etc. este saber que eu chamaria, se vós quereis, o saber da
gente {gens} (e que não é absolutamente um saber comum, um bom senso, mas, ao
contrário, um saber particular, um saber local, regional, um saber diferencial, incapaz
de inanimidade e que não deve sua força senão ao trinchante que ele opõe a todos os
que o cercam) é pela reaparição destes saberes locais da gente, destes saberes
desqualificados que se fez a crítica.
Vós me direis: há, entretanto, aí, alguma
coisa como um estranho paradoxo em querer agrupar, acoplar na mesma categoria saberes
sujeitados, de uma parte, estes conteúdos do conhecimento histórico meticuloso,
erudito, exato, técnico e, após, estes saberes locais, singulares, estes saberes da
gente que são saberes sem senso comum e que foram, por assim dizer, deixados em pousio,
quando não foram efetiva e explicitamente tutelados. (...) Num caso como no outro, com
efeito, neste saber da erudição como nestes saberes desqualificados, nestas duas formas
de saberes, sujeitados ou sepultados, de que se tratava? Tratava-se do saber histórico
das lutas. No domínio especializado da erudição como no saber desqualificado da gente
jazia a memória dos combates, esta, precisamente, que foi até então tutelada. E, assim,
se desenhou o que se poderia chamar uma genealogia ou, assim, se desenharam, melhor,
pesquisas genealógicas múltiplas, simultaneamente, redescoberta exata das lutas e
memória bruta dos combates; e estas genealogias, como acoplagem deste saber erudito e
deste saber da gente, não foram possíveis e não se pode mesmo tentá-las, senão sob
uma condição: que seja levantada a tirania dos discursos englobantes, com sua hierarquia
e com todos os privilégios das vanguardas teóricas. Chamamos, se vós quereis, genealogia
a acoplagem dos conhecimentos eruditos e das memórias locais, acoplagem que permite a
constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas
atuais.
(...) Trata-se, de fato, de fazer jogar saberes
locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica
unitária que pretendia filtrá-los, hierarquizá-los, ordená-los em nome de um
conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência que seria detida por alguns.
As genealogias não são, pois, retornos positivistas a uma forma de ciência mais atenta
ou mais exata. As genealogias são, muito exatamente, anticiências. Não que elas
reivindiquem o direito lírico à ignorância e ao não-saber, não que se trate da recusa
de saber ou da colocação em jogo, da colocação em exergo dos prestígios de uma
experiência imediata, ainda não captada pelo saber. Não é disso que se trata. Trata-se
da insurreição dos saberes. Não tanto contra os conteúdos, os métodos ou os conceitos
de uma ciência, mas de um insurreição, primeiramente e antes de tudo, contra os efeitos
de poder centralizadores que estão ligados à instituição e ao funcionamento de um
discurso científico organizado no interior de uma sociedade como a nossa. E que esta
institucionalização do discurso científico tome corpo numa universidade ou, de uma
maneira geral, num aparelho pedagógico, que esta institucionalização dos discursos
científicos tome corpo numa rede teórico-comercial, como a psicanálise, ou num aparelho
político com todas suas aferências, como no caso do marxismo, no fundo pouco importa. É
bem contra os efeitos de poder, próprios de um discurso considerado como científico, que
a genealogia deve conduzir o combate. (...)
A genealogia seria, pois, em relação ao projeto de
uma inscrição dos saberes na hierarquia do poder próprio à ciência, uma espécie de
empresa para dessujeitar os saberes históricos e torná-los livres, isto é, capazes de
oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico unitário, formal e
científico. A reativação dos saberes locais menores, diria talvez Deleuze[1]
contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos de poder
intrínsecos é esse o projeto destas genealogias em desordem e em pedaços
(Foucault, 1997, p. 8-11).
Referências bibliográficas: * Psicóloga. [1] Os conceitos de menor
e de minoria acontecimentos singulares melhor do que essências
individuais, individuações por ecceidade, melhor do que por substancialidade
foram elaborados por Gilles Deleuze com Félix Guattari, em Kafka. Pour une littérature mineure (Paris,
Éditions de Minuit, 1975), retomados por Deleuze no artigo Philosophie et monorité
(Critique, fevereiro 1978) e desenvolvidos em
seguida, em particular em Gilles Deleuze & Félix Guattari, Mille Plateaux. Capitalisme et schizophrénie,
Paris, Éditions de Minuit, 1980. A minoria reenvia também ao conceito de
molecular elaborado por Félix Guattari em Psychanalyse et Transversalité. Essai danalyse
institutionnelle (Paris, Maspero, 1972) e cuja lógica é a do devir e das
intensidades. |