A Conversão Religiosa

Autor: Glaucio José Couri Machado - nov/94

 

O fenômeno religioso é tão antigo quanto o homem. Segundo Rubem Alves , "não sabemos nem onde e nem quando o homem teve pela primeira vez, uma experiência religiosa. Cremos, entretanto, que a primeira experiência religiosa marca a transição do macaco nu para o homem. Surgiu, naquele momento, de forma inexplicável, uma maneira de ser perante o mundo, um novo tipo de consciência" . Desta forma, inaugura-se no indivíduo a consciência religiosa.
É ela o "palco" do aspecto religioso, porém, não está separada como um compartimento na psique humana, faz parte do todo desse homem. Esta consciência, presente na totalidade humana, sofre dos mesmos fenômenos que formam a realidade deste homem. Um destes fenômenos é, de acordo com Peter Berge e Luckmamm, a questão da conservação e a transformação da realidade subjetiva. A conservação se diz respeito à reafirmação da realidade subjetiva do homem.
Essa necessidade de conservação está presente na conversa - que é o veículo mais importante para a conservação da realidade. A simples conversa, inclusive a corriqueira, marca esta necessidade de identificação do indivíduo com seu mundo (em amplo aspecto). Conserva-lo é encontrar-se, estar em sintonia com seu próprio pensamento. A conversa, significa antes de mais nada, que os indivíduos se interagem e nesta conversa esta a fala e a comunicação não verbal. A conservação nem sempre é explicita, sendo normalmente implícita.
"Ao mesmo tempo que o aparelho da conversa mantém continuamente a realidade, também continuamente a modifica. Certos pontos são abandonados e outros acrescentados, enfraquecendo alguns setores daquilo que ainda é considerado como evidente e reforçando outros. Assim a realidade subjetiva de uma coisa da qual nunca se fala, torna-se vacilante(...). Geralmente falando, o aparelho de conversa mantém a realidade "falando" de vários elementos da experiência e colocando-os em um lugar definido no mundo real"
Para manter a realidade subjetiva, a conversa deve ser com continuidade e coerência, pois se houver rupturas podem representar ameaças para a paz subjetiva.
Essas ameaças ocorrem não apenas com o mais importante veículo para a conservação da realidade, mas com qualquer outro que interrompa a definição da realidade na consciência . Desta forma há a possibilidade da realidade subjetiva ser transformada, o que Berger e Luckmann chamam de "alternações".
A alternação, ou seja, a transformação, é o caso extremo da modificação. Caso este, em que qualquer indivíduo por viver em sociedade está sujeito a sofrer. E para que ela ocorra há a exigência de processos re-socializadores.
A conversão religiosa é a própria alternação como um exemplo clássico. A conversão para ser bem sucedida, como a alternação, exige a inclusão de condições sociais e conceituais. A condição social mais importante é a possibilidade de dispor de uma estrutura efetiva de plausibilidade, isto é, uma base social que sirva de "laboratório da transformação". Essa estrutura de plausibilidade será oferecida ao indivíduo pelos outros significados com os quais deve estabelecer forte identificação afetiva. Não é possível a transformação radical da realidade subjetiva (incluindo, evidentemente, a identidade) sem esta identificação, que inevitavelmente repete as experiências infantis da dependência emocional com os outros significados. Estes últimos são os guias que conduzem à nova realidade. Representam a estrutura de plausibilidade nos papéis que desempenham com relação ao indivíduo (papéis tipicamente definidos de maneira explícita em termos de função re-socializante) e, mediatizam o novo mundo para o indivíduo.
A conversão para se manter efetivamente plausível deve estar contida numa comunidade religiosa (como dizem os autores citados, "a conversão pode antecipar-se à filiação a uma comunidade" , mas isto não quer dizer negar a comunidade), pois será ela aquela que manterá o sentimento de plausibilidade, pois o importante é conservar a nova identidade e a conservação se dará na comunidade.
Outros aspectos para que a alternação seja executada com êxito, são as exigências de separação do indivíduo do mundo anterior ( no caso religioso e em outros pode ocorrer até uma segregação física); uma reorganização do aparelho de conversa; a exigência de um aparelho legitimador para completar a transformação, assim como, até mesmo, a possibilidade de esquecer algumas pessoas ou fatos do passado.
Rubem Alves no seu livro "O Enigma da Religião" também explica a conversão. Para ele o colapso entre a harmonia do eu e o mundo, sendo que o eu estaria num processo de anomia, seria o primeiro momento para a conversão. O estado de anomia, um conceito durkheimaino, diz da ausência de regras sociais; uma ausência no sentido da não compreensão ou o cumprimento de regras sociais. Por isso, como diz o próprio autor "a experiência da conversão se dá com mais freqüência em situações de desorganizações de esquemas culturais de interpretação (choque culturais, o impacto da urbanização sobre regiões agrárias), em crises pessoais profundas ou em situações de anomia geral, quando a ideologia de uma nação ou civilização desmorona" .
O momento posterior é a descoberta da solução para a melhoria perante o estágio anterior - o "momento da crise e desestruturação da personalidade encontra uma solução" . É encontrar-se diante de um novo universo significativo, o antigo homem se torna um novo, saído de uma crise onde a realidade não o afirmava; na nova descoberta encontra-se seguro, sintonizado com o real.
Rubem Alves afirma que a "experiência da conversão, com vestes religiosas ou não, é uma possibilidade permanente aberta ao homem e, como tal, um sintoma de permanente precariedade do mundo em que habitamos" .
Dessa forma a conversão, tanto para Berger e Luckmann quanto Rubem Alves representa a transformação de um mundo para outro, a mudança de significados outrora aceitos hermeticamente para um novo conjunto de significados, porém o rito de passagem vem complementado com crises e dúvidas perante o mundo anterior. Outro ponto é o fato do homem estar sempre sujeito às transformações, o fato de viver em sociedade o leva a poder sofrer conseqüências em que ocorram mudanças radicais nas suas crenças. Peter Berger afirma que a sociedade faz o homem como o homem faz a sociedade, sendo este um processo dialético, portanto, a conversão pode ser um pêndulo no processo constante do movimento que ocorre na sociedade. Com isto, a conversão religiosa está mais que presente neste mundo moderno onde há disputas entre religiões na utopia da hegemonia religiosa. Esta disputa leva primeiro o homem à crise, sua crise de consciência, para depois reergue-lo, re-socializando-o e lhe mostrando o novo mundo.

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