A Importância do Estudo do Conceito de Comunidade para as CEBs
Autor: Glaucio José Couri Machado - out/96



A importância que o conceito de comunidade tem para diversos setores intelectuais, científicos ou mesmo religiosos é muito grande. Este conceito está presente em várias formas de pensamento. Uma destas formas é o aspecto da religião que o carrega de sentidos vitais no linguajar e no entender da religião. Falar da comunidade ou de comunidade na religião é, às vezes, falar de seus próprios fieis quando ela indica que sua população alvo, ou seus membros, compõem-se numa comunidade de fieis. A igreja para algumas teologias é a representação de seus fieis reunidos em comunidade. No cristianismo, teólogos como Hans Küng se referem à comunidade como sendo uma das causas do surgimento da própria Bíblia , pois, “sem essa comunidade dos que creram em sua causa, Jesus não teria permanecido vivo na humanidade. E mais: sem ela, não teria surgido aquele livrinho em que se juntam os mais antigos e os melhores testemunhos sobre ele”. Essa noção sobre o surgimento da Bíblia é uma noção que fortalece o sentido da comunidade dentro do cristianismo, pois sem sua comunidade de fieis, não existiria a vivência de Jesus na humanidade e nem os testemunhos de suas passagens. O cristianismo neste caso se difere do islamismo que tem seu livro sagrado - O Alcorão - entendido como mensagens ditadas diretamente por Deus. Neste caso o valor da comunidade no cristianismo se remete até mesmo na formação de seu pensamento religioso, histórico e filosófico. A comunidade foi fator inclusive de estudos nas elaborações do Vaticano II, tendo em seus anais vários aspectos quanto a sua conceituação e caracterização e, mais recentemente, a linha teológica denominada por “Teologia da Libertação” resgata o valor da comunidade como algo importante na vivência religiosa. Este valor está contido nas suas Comunidades Eclesiais de Base - conhecidas pela sigla “CEBs” - que denota um valor tão importante ao termo capaz de ser ele formador da nomenclatura da parte visível da “Teologia da Libertação” que são as CEBs.


Dessa forma o estudo sobre o termo comunidade no pensamento religioso é pertinente e importante para perceber como a religião, ou as várias religiões, entendem ser a formação e o sentido dos agrupamentos humanos e como se formou a construção teórica deste conceito é outro fator de importância para analisar como ele é elaborado nos dias atuais.


No caso das Comunidades Eclesiais de Base este termo faz parte de sua eclesiologia, assim, estudá-lo é primordial para o entendimento acerca do que venha ser a própria CEBs e qual o sentido que é dado para a compreensão do que venha ser comunidade. Desta forma o estudo do conceito facilita o entendimento das CEBs e também acarreta facilidades para o envolvimento delas com o restante do pensamento cristão e particularmente católico. Do I Encontro Intereclesial de Vitória/ES em janeiro de 1975 até o próximo em julho de 1997 na cidade de São Luís do Maranhão/MA vão se passar 22 anos de organização das CEBs no Brasil a partir dos Encontros, isto é, não se computando os períodos pré-Vitória, que muito provavelmente acrescentarão um tempo muito maior da existência das CEBs no Brasil. Desse modo, um estudo sobre como se construiu o pensamento sobre o conceito de comunidade nesta eclesiologia católica é muito pertinente, pois este conceito é fundamental na elaboração teológica, sociológica e, até mesmo, política desta “forma de ser Igreja”.


Assim, o estudo sobre as Comunidades Eclesiais de Base são importantes para a averiguação da história, da sociologia, da teologia e filosofia do catolicismo no Brasil e suas perspectivas de constituição na sociedade brasileira.


Quanto ao conceito em si, ele está presente em diversas ciências e construções intelectuais. Na sociologia ele a acompanha praticamente desde seu surgimento. Antes mesmo de se instaurar o saber sociológico como um saber científico, o estudo do conceito e das práticas comunitárias já era elaborado pela filosofia. Foi na filosofia jusnaturalista, nos séculos XVII e XVIII - principalmente com os estudos de Locke, Hobbes e Rousseau - que se inaugurou um estudo mais sistemático das formas de agrupamentos humanos e suas elaborações sobre a vivência social. Estes estudos vão ser diretamente influenciadores das futuras confecções sociológicas de comunidade e sociedade, pois instauram uma visão dicotômica das análises dos agrupamentos humanos entre “estado natural” e “estado civil”, o que mais adiante ao se estabelecer o pensamento sociológico, sob a influência desta forma dicotômica da filosofia jusnaturalista, passou-se a estudar e conceituar os agrupamentos humanos em todas as suas diversidades em comunidade e sociedade.


A sociologia tem no conceito de comunidade um de seus pilares na elaboração da ciência sociológica tal como é hoje. Termos como trabalho, cultura, classe social, desenvolvimento, mobilidade social, “status” e a própria comunidade é que vão organizar na história da sociologia a evolução de seus pensamentos e construções teóricas. Hoje em pleno final do século XX, o pensamento sociológico açambarcou, além dos termos referidos, outros que compreendem o universo do estudo sociológico, como por exemplo a globalização; mas dentro das idéias-elementos da sociologia continua o termo comunidade fundamental para a compreensão e desenvolvimento da ciência sociológica.


Com isto, um estudo sobre a comunidade visualizada pelos teólogos do período de consolidação das CEBs no Brasil pela sociologia da religião pode apresentar a problematização da utilização deste conceito não apenas para um caso específico das ciências da religião mas, também, para todos os estudos que envolvem o conceito, principalmente para a sociologia que o tem como fundamento importante para seu objeto de estudo.


. Além destas justificativas para o estudo do conceito, não está ele inviabilizado como objeto de análise nas elaborações científicas e filosóficas que apontam a globalização como uma tendência irremediável no mundo. A globalização e o estudo da comunidade não são incompatíveis. Um sociólogo italiano, Enzo Pace , ao problematizar a globalização apontou a dificuldade existente na própria definição deste conceito. Segundo ele, este termo é ainda muito questionado e conceituado de formas diversas sem que ainda tenha constituído uma teoria aceitável de forma universalizante ou, no mínimo, menos polêmica pelos meios intelectuais. Algumas sugestões para o estudo das religiões ou da religião num mundo globalizado são apresentadas por ele e neste rol o estudo de religiões que apresentam a possibilidade do que chama de “glocalismo” - a capacidade de certas culturas manterem suas estruturas sem perderem a perspectiva global - é uma pista muito importante para o estudo do conceito e da própria utilização do mesmo no fenômeno da globalização. A comunidade, portanto, não é um assunto arcaico no mundo globalizado, continua ela muito viva nesta perspectiva, pois, como o mesmo Pace apresenta, o surgimento de culturas fundamentalistas, fechadas em si, é a antítese e a resposta de muitos agrupamentos para as influências externas que provocam a queda da capacidade de distinção de si mesmo e do outro, ou seja, a influência externa provoca em certas culturas a queda da confiança na legitimação dos poderes constituídos “nublando” a capacidade de distinção e conseqüentemente de identidade. Assim, a formação de comunidades no tipo mais conservador é uma realidade no mundo globalizado.


As CEBs têm por ser católica um projeto pluriclassista e mundial e seu universo de abrangência é naturalmente o mundo católico e também a conversão de outros adeptos. Nesta perspectiva, segundo Pedro A. Ribeiro de Oliveira , ela se difere do “tipo paróquia” em muitos aspectos. Alguns podem ser exemplificados, tais como a primeira estar calcada numa hierarquia diferenciada onde o padre não é o centro do poder, a própria celebração é diferenciada onde nela o(a) leigo(a) é agente/sujeito e não mero coadjuvante - como normalmente acontece no “tipo paróquia”. O incentivo à participação política é outro fator de diferenciação, assim como a organização estrutural e administrativa se diferem, no sentido de que nas CEBs as tarefas e os poderes são descentralizados e distribuídos aos diversos membros na forma de pleitos com conotações democráticas. Com estes exemplos pode-se perceber as diferenças entre os dois “tipos” e pode-se analisar que estas diferenças acarretam disputas no interior do catolicismo. Com isto como exemplo há um entendimento da importância do estudo das CEBs juntamente com outros fatores já apresentados, pois um estudo deste tema é numa verdade subtendida um estudo do catolicismo em geral e suas tendências de futuro.


Assim, estudar o que uma religião (ou parte dela) entende por comunidade, bem como este conceito, é poder auxiliar no entendimento, neste caso, do movimento no interior do catolicismo e nas análises dos elementos que compõe a ciência sociológica.


Por ser o conceito de comunidade uma idéia-elemento da sociologia e também por ser uma preocupação teórica de várias outras linhas de pensamento científico ou não, trabalhar com este conceito não é uma tarefa que apresente unanimidade entre seus diversos campos de estudo. Dentro da sociologia, Nels Anderson aponta que Georg A. Hillery reuniu 94 definições diferentes para o conceito de comunidade. Somente este exemplo já demonstra a dificuldade de tal empreendimento e entre as diversas definições pode-se encontrar várias tendências ideológicas para o conceito.


Robert Nisbet direciona que as teorias do conceito de comunidade, bem como as suas diversas práticas, vão para duas direções possíveis: uma conservadora e outra utópica. Dentro da primeira estão aquelas que justificam práticas comunitárias calcadas na tradição e sem possibilidades de aglutinarem no seu interior influências exteriores. Teóricos desta primeira tendência pode ser exemplificado por Burke e Thomas Hobbes. Na linha utópica estão contidas as teorias e as práticas comunitárias que têm como fundamento o rompimento com o individualismo e a construção de um novo agrupamento embasado no companheirismo, sem que a tradição seja necessariamente a base deste agrupamento, podendo ser, na maioria das vezes uma comunidade completamente diferenciada em estilo, regras e costumes da tradição anterior. O “socialismo utópico”; a “Comuna de Paris”; a comunidade de fiéis - dentro do cristianismo e também presente em outras tradições religiosas; as comunidades “hippies” e outras são exemplos de práticas comunitárias utópicas e conseqüentemente suas teorias também se enquadram nesta categoria.


Por toda esta diversidade e pela própria importância que o conceito tem dentro do “corpus” da sociologia, se faz mister analisá-lo mais detalhadamente para que sua aplicabilidade tenha uma maior transparência e, neste raciocínio, poder ser utilizado pelas distintas demandas de forma mais plausível. Uma destas demandas está a religião e, particularmente no caso das CEBs, o conceito faz parte de sua própria nomenclatura e eclesiologia, neste caso, precisar as dificuldade que o envolve é fator facilitador de entendimento acerca do que realmente são as CEBs.


Como se percebe o termo comunidade é muito amplo e diversificado. Conseqüentemente, esta diversificação e amplitude acarreta para a “Teologia da Libertação” uma dificuldade para o entendimento da sua parte “visível” (as CEBs). Esta parte “visível” apresenta três termos básicos: comunidade, eclesial e base. Se a compreensão de cada termo não estiver contida por agentes passíveis de enquadramento aos distintos momentos históricos em que passa a humanidade, ou que pelo menos, estes termos possam ser compreendidos como elementos simbólicos no movimento existente no interior de cada cultura, a tendência da aplicabilidade dos termos é, em uma hipótese, poder se tornar ameaçador para a própria existência do organismo que o carrega. Assim, estudar e analisar o conceito de comunidade contido na eclesiologia das CEBs é estudar oportunamente a potencialidade das CEBs como estrutura viva na Igreja Católica e, ao mesmo tempo, poder contribuir nas possíveis e distintas utilizações do termo sem que as CEBs percam sua essência estrutural.

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